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Chove lá fora

12.07.20

     Chove lá fora. Vejo um clarão seguido de um estrondo. A minha mente perde-se por momentos nos cálculos de infância - então, se a velocidade da luz.. e a velocidade do som.. isso quer dizer que a trovoada... - Mas rapidamente volto à realidade.

     Chove lá fora. Vejo um clarão seguido de um estrondo. A água escorre junto à estrada e sou de novo relembrado da minha infância - as brincadeiras que eu inventava quando tinha de ficar fechado em casa por estar a chover.. - Mas rapidamente volto à realidade.

     Chove lá fora. Vejo um clarão seguido de um estrondo. Depois de um dia de verão incrível, veio esta trovoada, normal com a chegada do calor, já anunciada pelos meteorologistas. Faz-me lembrar do inverno e ter saudades. Sim, hoje tenho saudades do inverno. Dos dias em que está frio. Dos dias em que chove. Dos dias em que podemos ficar em casa, aconchegados, sem a pressão constante de ter de aproveitar o dia. Hoje tenho saudades do inverno e de poder estar sozinho sem sentir a necessidade de sair e apanhar sol.

     Chove lá fora e sou lembrado de uma frase que ouvi à pouco tempo ("Aquilo para que olhas importa, mas não tanto como a forma como olhas ou com quem olhas") e, apesar de ser verão, para mim hoje é inverno.

     Hoje chove lá fora, mas também chove cá dentro.

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     Está demasiado calor. O verão chegou e a praia chama por mim. Pego num livro mais ligeiro e deixo aquele livro desafiante no escuro do meu quarto. Há meses que o estou a tentar acabar, mas hoje nem lhe vou tocar. A preguiça causada por este tempo está a chegar até mim e eu deixo.

     Com o livro numa mão e a toalha noutra vou até à praia onde está demasiada gente para me sentir confortável. Deito-me um pouco a apanhar sol. Viro-me e ao fim de poucos minutos acabo por desistir. Sento-me a tentar ler um pouco. Acabo a primeira página e mudo de posição. Mais uma página e tento mudar novamente. Mais uma página e fecho o livro. As crianças a brincar, os adolescentes a partilhar a sua música com a praia toda, as familias a aproveitar o bom tempo para estarem novamente ao ar livre, sem restrições aparentes. Todo este barulho é demais para mim. Pego nas minhas coisas e volto para casa.

     Em frente ao computador volto a rever o meu dia. Em frente a um ecrã branco que me ofusca a visão volto a pensar no que fiz hoje. Tento lembrar-me das horas a que me levantei, do que almocei, do que fiz de útil e nada. Em frente ao teclado tento fazer finalmente algo que considere produtivo. Tento escrever algo. Não importa o quê. Só importa conseguir passar algumas palavras para esta folha em branco e não sai nada. Hoje foi um dia não. Não consegui ler, não consegui fazer nada de produtivo. Hoje não me apetece sequer escrever. Amanhã volto a tentar!

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     Procuro as palavras. Procuro a inspiração. Procuro tudo aquilo que sei que está dentro de mim e que não quer sair.

     Tento partilhar da melhor forma aquilo que me vai na cabeça. Tento que me saia através das mãos aquilo que nem através da boca consigo exprimir.

     Ao contrário da palavra falada, a palavra escrita tem tempo de ser ponderada. Tem tempo de fazer sentido e tem tempo para ser compreendida. Fica assente e não volta atrás. Não depois de ser partilhada.

     Naquele que penso ser o melhor meio para compreender ideias e pensamentos. Naquele que penso ser o melhor meio para conseguir transmitir todo o conteúdo e sentimento, todas as subtilezas e particularidades que ruminam nos cantos mais escondidos das nossas mentes. Naquele que considero ser o melhor meio para a partilha, é naquele em que mais luto. Na busca da palavra adequada. Na busca da construção de frase ideal. Na busca da ordem de pensamentos perfeita fico preso e não avanço. Não partilho, não acabo.

     Na busca do texto perfeito vou ter de continuar a partilhar estes que são o seu oposto.

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Porque escrevo

02.07.20

     Passo horas em frente a páginas em branco. Mais horas ainda em frente a palavras que acabo por apagar. E muito mais com ideias que teimam em não ganhar forma e sair para o papel.

     Uso demasiado do meu tempo a pensar em escrever. Uso demasiado do meu tempo a pensar no que escrever. Uso demasiado pouco do meu tempo a escrever.

     Não sei porque o faço. Não sei porque gasto toda esta energia com algo que, no fim de contas, aparenta sempre ser algo tão inutil e sem sentido. Não sei porque me desgasto tanto com algo para que sempre pensei não ter habilidade nenhuma.

     Não sei porque o faço, mas sei que não podia fazer de outra forma. Sei que não havia mais nada que pudesse estar a fazer neste momento. Sei que estou a fazer algo que tenho de fazer. Não porque tenha jeito, não porque seja bom, não porque seja útil. Nem tão pouco por ser algo  que me faça sentir bem.

     Escrevo porque me faz sentir mais em paz. Escrevo porque me faz sentir menos mal. Escrevo porque me faz sentir mais eu.

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Só para ti

30.06.20

     Estas palavras são só para ti.

     Tu que estás a ler este texto.

     Escrevo para ti e mais ninguém.

     Agora que todos querem ter milhares de seguidores, gostos, visualizações, eu só quero que tu leias este texto e mais ninguém.

     Não o partilhes, nem sequer o voltes a ler.

     Se ao leres esta palavra. Sim, esta mesmo. Ou a próxima. Em qualquer uma. Se ao leres esta palavra te aperceberes do que tens de fazer neste momento, vai faze-lo.

     Não leias mais nada. Nem sequer acabes este texto. Vai faze-lo.

     Vai escrever, vai ler o livro que está a ganhar pó na prateleira, vai lavar a loiça que ficou do jantar, mas vai!

     Sim, este texto é só para ti. Não quero que mais ninguém o leia. Se fores a única pessoa a deixar este texto a meio, para mim é suficiente. Se fores a única pessoa que pensou algo diferente ao ler estas palavras, para mim é suficiente. Se só voltares aqui quando não tiveres nada para fazer, volta só para deixares novamente este texto a meio ao aperceberes-te de que a vida está lá fora.

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     Todos os dias penso em escrever e raramente o faço.

     Todos os dias tenho uma nova ideia e raramente a concretizo.

     Todos os dias tenho um novo texto e raramente o publico.

     Quero-o fazer. Quero escrever e quero que os meus textos sejam publicados. Queria ter a coragem de passar as minhas ideias para o papel virtual do meu computador e mais coragem ainda para as enviar para o mundo. Mas não tenho. Pelo menos não na maioria dos dias.

     Ao olhar para os meus textos antigos tenho vergonha. Vejo que não são bons para mim, e ainda piores para os outros. Mesmo estas palavras, tenho vontade de as apagar à medida que as escrevo.

     Há dias, como o de hoje em que algo despoleta uma nova faisca.

     Há dias, como o de hoje em que de novo ganho coragem.

     Há dias, como o de hoje em que algo me faz de novo voltar a escrever e a publicar.

     Apesar de ter vergonha dos textos passados não os apago, pelo mesmo motivo pelo qual hoje ganhei a coragem de escrever este texto. Apesar de ter vergonha e de saber que este texto não devia sequer ter saido da minha cabeça, vou publica-lo na esperança de que amanhã tenha a mesma coragem e de que com o acumular de textos vergonhosos, um dia mais tarde possa olhar para trás e ver que foram todas estas palavras o motivo para conseguir finalmente escrever algo de que me orgulhe.

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     Voava rente ao chão com medo de cair. Numa tentativa de se deslocar mais rápido que todos os que o rodeavam, de chegar mais alto, voava. Batia as suas pequenas asinhas com uma força descomunal. Contra o vento, contra a chuva, contra todas aquelas correntes de ar frio que, segundo todos os programas de vida selvagem, se deviam evitar de forma a manter-se mais tempo no ar com menos esforço.

   Não voava acompanhado, muito menos numa formação enorme de aves ensurdecedoras. Nem tão pouco era um predador. Apenas se tentava manter no ar, fora do seu ambiente natural, sempre com medo de cair.

     Todas as noites, ao adormecer, sonhava voar mais alto. Imaginava formas mirabulantes de fazer crescer as suas asas. Chegava mesmo a tentar compreender o incompreensível movimento do ar, com todas as suas correntes.

     Até que naquele dia fatidico, encontrou outras avesinhas iguais a si. Sem saber para onde voavam nem como. Nesse dia em que se encontraram não tentaram mais voar e simplesmente aterraram.

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     Galopam como se não houvesse amanhã. Hoje estão aqui, amanhã ali. Sem dono nem estábulo vão onde querem e quando querem. Não trazem nada, não levam nada. Julgam-se donos do mundo só porque podem o que nunca ninguem pode. Sem responsabilidades e com todas as regalias sem custos nem penalizações.

     Visitam culturas e tiram selfies junto de monumentos antigos que destroem sem saber que o fazem. Comem como se estivessem em casa e julgam-se criticos de culinária. Falam uma língua universal e dizem-se poliglotas.

     A cultura que todos procuram é a cultura dos sedentários. Daqueles que fazem o que todos faziam antes de se fazer o que se faz hoje. A cultura que todos vêem é a cultura dos cavalos errantes que vêem fazer aquilo que eles mesmos fazem hoje, seja onde for o destino da última fotografia que colocam nas redes sociais.

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Não votei!

26.05.19

     Eu não vou votar!

     Eu sei que é um dever, que é um direito. Até concordo que o meu voto ia contar para alguma coisa e é por isso mesmo que não vou votar. Não vou votar porque não sei em quem votar. E por muitos bons argumentos que usem, não vou votar num mal menor. Fiquem descansados, os ofendidos, que não vou levar os próximos anos a reclamar dos politicos. Reclamo sim daqueles que tudo o que fazem é votar! Votar é um dever, mas é também o dever de votar conscientemente naquilo em que se acredita. Mais do que votar uma vez a cada quatro anos, o nosso dever numa democracia é votar todos os dias com as escolhas que fazemos. Não vou aliviar a minha consciencia com uma foto de instagram ou um post num blog a dizer que voto quando ao longo do ano não faço nada nem pelo meu vizinho (do qual nem o nome sei), quanto mais pelo meu país ou pelo mundo.

     Acredito na democracia e compreendo todo o seu poder e é por isso mesmo que não vou votar. Não vou deixar que uma cruz num papel sem pensamento critico, uma cruz num papel apenas influenciada pelos cartazes e panfletos que não dizem nada vá ditar o meu futuro. Não vou deixar que a minha falta de vontade em pesquisar, em compreender as várias opções vá ditar o vosso futuro. Eu acredito na democracia e é por isso que agradeço à abstenção e peço a todos aqueles que vão votar só por ser um dever que fiquem em casa. Não influenciem o futuro de todos inconscientemente.

     Todos temos o direito e o dever de votar, mas mais do que isso todos temos o direito e o dever de o fazer ao longo do ano e é por isso que eu confio em todos aqueles que o vão fazer conscientemente. Mais do que agradecer o direito ao voto, agradeço a todos aqueles que o fazem sempre por todos nós.

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O post-it

21.05.19

     Procurava por todo o lado e não encontrava.

     Desde há muito tempo que tinha ganho o hábito de escrever em post-its para não se esquecer de nada. As listas de compras colava-as na carteira para saber se tinha tudo antes de pagar. Os títulos dos videos que queria ver mais tarde colava-os no computador para no dia seguinte estarem mesmo à sua frente. Tarefas das quais não se podia esquecer estavam coladas ao telemóvel por ser dos objectos para os quais mais olhava. Pequenos poemas estavam espalhados pelas paredes do seu quarto. Curiosidades e até frases de motivação podiam ser encontradas por toda a casa. Algumas receitas simples estavam no frigorifico e algumas outras em papeis todos salpicados de óleo estavam perto do fogão. Viam-se papeis coloridos a espreitar por entre as páginas dos diversos livros que tinha espalhados em cima da secretária e nas estantes.

     A sua vida era repleta de quadrados de todas as cores cheios de palavras e desenhos mas tinha-se esquecido de onde tinha metido um deles. Não conseguia lembrar-se do que tinha escrito nesse pequeno pedaço de papel amarelo (sabia que era amarelo porque foi dos primeiros que escreveu, ainda antes de descobrir que existia um arco-iris de possibilidades). De certeza que era algo de que se tinha esquecido e por isso tinha de o encontrar depressa. Mas lá estava ele, bem dobrado no meio do seu livro preferido, sem sequer poder dar utilidade à cola já gasta. Escrito com uma letra miudinha e cheia de curvas que a tornavam dificil de compreender, num papel que estava a perder a cor nos vincos de tanto ser desdobrado e voltado a dobrar leu algo de que era preciso ser relembrado:

"Sê feliz"

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